28 de nov de 2011

Regras de contabilização da inflação


Gente,
Divulgo aqui o texto a seguir com alguns comentários em homenagem ao Prof. Eliseu Martins pelas discussões feitas nesse semestre na disciplina Teorias do Lucro e da Avaliação Patrimonial, no PPGCC - FEA/USP. A inflação é coisa do passado!! Será mesmo? Não é preciso mais estudar correção monetária!! Tem certeza?

Ressurgimento da inflação traz de volta debate sobre regras de contabilização
Texto publicado no Valor Econômico em 05/05/2011, por Tony Jackson - Financial Times

As perspectivas para a inflação no mundo desenvolvido podem ser turvas, mas em algumas economias emergentes o quadro é comparativamente mais nítido. Considere a Índia, com uma inflação estimada em 12,1% em 2010 ou a Argentina com 10,9%.
Isso levanta uma questão interessante para as multinacionais do Velho Mundo que estão se esforçando para construir sua presença nesses países. O que elas estão fazendo para corrigir o efeito distorcedor da inflação local em suas demonstrações de resultados?
Não muito, ao que parece. As normas contábeis internacionais e americanas especificam que a contabilização da inflação deve ser usada em subsidiárias em países com hiperinflação – genericamente definida como 100% em três anos, ou 26% acumulados ao ano [e se for 99% ou ainda 98% ou algo próximo disso não existiria hiperinflação???]. A única economia que satisfaz o critério é da Venezuela.
Em outros países de inflação elevada, nenhuma ação é exigida. E de acordo com auditores e empresas que consultei, nenhuma ação é tomada.
Isso não deveria, talvez, surpreender-nos. As distorções causadas pela inflação são, principalmente, para cima [O prof. Eliseu Martins sempre defende que as distorções causadas pela não consideração na Contabilidade das variações no poder aquisitivo da moeda são imensas]. Por que deveriam as empresas negar-se um modesto incremento no lucro, por ilusório que seja, quando ninguém diz que elas têm de fazer correções?
Quanto aos próprios países, a questão é outra. Alguns países latino-americanos estão discutindo possíveis mudanças nas regras com o Conselho de Normas Internacionais de Contabilidade (IASB, na sigla em inglês). O conselho deverá incluir a contabilização da inflação entre as questões para discussão nos próximos 12 meses.
Há basicamente três vias pelas quais a inflação afeta os valores apresentados: depreciação, estoques e ativos/passivos financeiros.
A primeira é óbvia. Se você depreciar uma máquina durante sua vida de cinco anos por seu custo, mas o preço de uma máquina nova dobrar, seu lucro resultará inflado.
Estoques são menos óbvios, mas possivelmente, mais importantes. Para calcular o lucro bruto é preciso conhecer o custo dos materiais consumidos. Ou seja, tudo que é comprado durante o ano mais estoques iniciais – que são consumidos durante o período – menos os estoques finais, não consumidos.
Disso resulta que um aumento nos custos de estoques incrementará os lucros reportados. Mas, ao mesmo tempo, isso reduz o dinheiro em caixa.
Em meados da década de 1970, quando a inflação de preços ao consumidor no Reino Unido ficou em torno de 25%, a inflação dos custos industriais estavam mais próximos de 50%. As empresas ficaram sujeitas a grandes ônus tributários sobre lucros inexistentes e o governo introduziu apressadamente isenções sobre valorizações de estoques para evitar falências.
Próximo item: ativos e passivos financeiros. Evidentemente, o efeito líquido da inflação sobre devedores e credores pode ser positivo ou negativo, conforme o balanço patrimonial.
Os efeitos sobre o patrimônio são mais sutis. As empresas precisam ter certeza de que, ao pagar dividendos, não estejam, na realidade, distribuindo capital. A solução óbvia é indexar esse capital. Mas a questão é qual índice usar.
Para itens em caixa, o índice de preços ao consumidor é suficientemente bom. Mas a taxa de inflação referente a ativos físicos, como vimos no exemplo britânico dos anos 1970, pode ser bastante distinta, e o valor dos ativos físicos, evidentemente, afeta o cálculo do patrimônio.
Então, como poderiam ser as novas regras para contabilização da inflação? No Reino Unido na década de 1970, toda essa ideia foi tão controvertida que no momento em que uma norma contábil foi finalmente formulada, a inflação tinha cedido.
A natureza dos argumentos, naquela época, poderia, então, servir como advertência. Para muitos contadores ortodoxos, a ideia de abandonar a contabilidade histórica de custos era um anátema. Eles preferiam falsidade precisa a verdade imprecisa.
Quem pensa que essa atitude dissipou-se deveria lembrar a hostilidade generalizada ainda gerada por regras mais recentes relativas à marcação de ativos financeiros a mercado. Imaginemos aplicar esse princípio a hardware e software, e compreenderemos como fica o cenário.
Tendo em vista as complexidades, o resultado provável é que os números serão ajustados por um simples índice de preços ao consumidor, como segundo as regras atuais para economias hiperinflacionárias. O resultado seria rudimentar, mas poderia ser o preço para obter uma adesão generalizada. E, afinal de contas, algo precisa ser feito. Tomados como uma categoria, os países emergentes podem não chegar a 100% de inflação em três anos. Mas o percentual atual é de 28% para a Argentina, 35% para a Índia e 36 na Rússia.
Quem pensa que, nesses casos, custos históricos representam a realidade está se iludindo. Um exame superficial das contabilidade gerencial das companhias multinacionais mostra que elas não trabalham com tais custos históricos. A questão é se elas compartilham a realidade com seus proprietários.
Faz 30 anos que Warren Buffett descreveu a inflação como sendo uma “gigante lombriga empresarial… que simplesmente limpa o prato”. Não estamos de volta à década de 1970, mas não custa nada tomar precauções.

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